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Plataforma Terráqueos - Aleluia Heringer
A fonte das mulheres
17 de julho de 2012 às 18:00
O filme “A Fonte das Mulheres” se estrutura em torno de uma situação rotineira na vida das mulheres de um pequeno vilarejo situado entre o Norte da África e o Oriente Médio, que é buscar água numa fonte, nos arredores. Nessa comunidade era preciso caminhar bastante, subir e descer o morro cheio de pedregulhos, equilibrando nos ombros baldes presos nas duas extremidades de uma vara. As quedas eram frequentes e com isso perdia-se todo o trabalho; noutras vezes, perdia-se, como no caso das grávidas, o próprio filho que estava por nascer.
E os homens, onde estavam? Por que não ajudavam? Se justificavam, evocando a tradição e os costumes milenares. Os homens plantam, colhem e vão para a guerra e as mulheres se ocupam das tarefas domésticas e da procriação. Foi sempre assim e assim continuará a ser. Contudo, ali, em razão da seca, não havia o que plantar, nem o que colher e muito menos havia guerra. A realidade era outra e aquela tradição, na visão das mulheres, precisava ser revista para atender às novas necessidades. Como não eram atendidas, resolveram fazer “greve de amor”, negando o corpo aos seus maridos. Essa temática permeia, então, todo o filme.
As mulheres são a fonte de muitas coisas; tudo já muito bem decantado em verso e prosa. Em inúmeras culturas é a fonte ou matriz que perpetua e legitima as tradições. São com as mulheres (mães, avós, babás ou professoras) que nossos filhos aprendem os primeiros elementos da cultura. Ensinamos com a nossa fala e com o nosso silêncio; com a nossa omissão ou posicionamento; com aquilo que assistimos, lemos, vestimos, divertimos ou comemos.
Essa introdução ilustra a força e a mudança que podem nascer de pequenas perguntas ou de um simples estranhamento. Tenho encontrado muitas crianças e jovens que demonstram profunda empatia e aproximação com os animais. São falas como da Júlia, que com dois anos e meio questionou a avó, de dentro do galinheiro: Vó! O ovo é da galinha! Por que você está pegando? Já o Iago, de cinco anos, disse ao avô, que estava matando a galinha: é assim que se faz? Depois disso não quis nunca mais comer carne de frango. Contudo, essas crianças enfrentam, em nome da cultura e da tradição, todos os tipos de resistências, principalmente em suas casas, com os seus próprios pais. Certamente essa nascente conexão com os animais será abafada e apagada.
No Brasil, ainda são as mulheres, em sua maioria, que se responsabilizam pela alimentação, que vão ao supermercado e que definem o cardápio familiar. Fico imaginando se, ainda na fonte, ensinássemos aos nossos filhos que é totalmente possível e desejável uma alimentação completa, sem a necessidade de sacrificar a vida de qualquer animal. Imagino a mudança que se empreenderia se as mães se recusassem a levar seus filhos aos circos que utilizam animais, aos rodeios, às vaquejadas, aos zoológicos, à “pesca esportiva”. E se deixassem de comprar nos mercados os passarinhos, as tartaruguinhas, os peixinhos e os filhotes de cachorros? Se cada criança, desde a mais tenra idade, soubesse, claramente, qual é a verdadeira história daquele “bifinho ou franguinho”; e que para crescer forte e saudável não é necessário comê-lo. Será que continuariam praticando essa tradição e cultura? Teríamos outros tipos de produtos nas prateleiras dos supermercados; outros alimentos sendo ofertados nos restaurantes, nas cantinas das escolas, nas confraternizações, nos encontros de finais de ano, e nos almoços de domingo. Os nutricionistas, os chefes de cozinha e as cozinheiras, utilizariam a criatividade para formular novos cardápios e inventarem novas receitas. Outro tipo de indústria ganharia força; muitas doenças deixariam de existir, diminuiríamos a emissão de gases de efeito estufa, poluiríamos menos os nossos rios, produziríamos menos lixo, alimentaríamos mais pessoas, consumiríamos menos água, diminuiríamos a obesidade, e mais uma centena de mudanças. Uma genuína revolução, gerada na fonte das mulheres! Fonte de vida, não de morte.
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